sexta-feira, 23 de março de 2007

A vendedora de doces e as figurinhas

A quarta-feira foi chuvosa. Depois do almoço no R.U. (Restaurante Universitário), e de derrubar toda uma pilha de bandejas quando coloquei a minha no topo (o que me rendeu um olhar mortal do rapaz da limpeza, indignado com meu desazo), pouca coisa poderia me fazer sentir mais mal.

A chuva apazigou-se, e sentamos, uma colega e eu, em uma mureta que ladeia uma rampa do campus. Sentados, conversávamos sobre LIBRAS (a Linguagem Brasileira de Sinais). Ela me demonstrava alguns sinais, depois de começar a conversa me respondendo qual a palavra mais bela que ela conhecia (eu havia perguntado sobre o léxico alemão, mas a resposta, o "eu te amo" em Libras - o que agora me parece malignamente irônico -, foi tão bonita que aceitei) e eu estava completamente airado, tomado pela beleza do sentido da linguagem de sinais e, devo admitir, pela proximidade dela. Mas, isso já não vem ao caso...

Imerso na voz maviosa, uma outra voz me fez emergir: uma voz mais fina, mais aguda. Uma menininha de roupas e modos modestos. Com caixas de papelão branco nas mãos delgadas e sofridas, a pequena perguntou:

- "Quer comprar negrinho?" (Nota: O doce chamado no resto do Brasil de brigadeiro)

Fernanda respondeu a realidade que era a mesma minha:

- "Ai, desculpa! Só tenho o dinheiro do ônibus!"

E foi aí que Deus decidiu que precisava me dar mais uma epifania sobre a patética natureza humana. Em lugar de voltar-nos as costas e sair caminhando proferindo raivosas (e compreensíveis) palavras, de pedir dinheiro ou mesmo comida, ela simplesmente perguntou à mesma colega minha, como se só a ela interessasse dirigir-se:

- "Teu caderno tem figurinha?"

Fernada respondeu que não, que o caderno dela não tinha figurinhas, e pediu desculpa, chamando a menina de algo doce, como "flor" ou "meu anjo". Foi só aí que percebi que a caixinha da esquálida menina tinha coladas algumas figurinhas, coloridas como os sonhos que ela por certo tem.

Como um trovão que só nos assombra tempos depois que o raio risca a vastidão negra do céu com sua luminosidade, o efeito daquele momento tão simplório foi retardado... Mais tarde é que me dei conta de como aquele "pequeno momento" foi repleto de significado. Pensem bem: o óbulo que ela pediu não serena a fome, não aplaca o frio, não apazigua a dor. Ela quis o sonho. Aquilo que Nosso Pai nos dá juntamente com nossa Alma para que jamais fiquemos presos em demasia ao corpo. O sonho nos eleva, nos leva mais perto da natureza Eteral.

E doeu-me, oh, doeu-me. Saber que não se esmola mais somente o pão, a blusa, o teto. Agora já se implora por atenção, por sonho, por fantasia. E abominei todos os arrogantes e pedantes do Intituto de Letras (pois é mais com eles que convivo) e depois todos daquela Universidade que julgam-se melhores que os outros pelo conhecimento acadêmico (o tenham ou não, dependendo de em qual categoria acima se encaixa o fulano).

E, por fim, questionei-me: Como pode o ser humano discutir letras, números, bytes, gênes, relevos e fechar os olhos à realidade, ao próximo necessitado de tudo? Será que é realmente importante discutir a Literatura de Viagem, a crioulização de pídgins, a unidade temática de uma obra escrita (para essas eu respondo meu parecer: não) e, enfim, todos os assuntos não-humanitários enquanto ali, a uns poucos metros do campus tem uma grande comunidade carente? Não é meio cruel falar em "preconceito lingüístico" enquanto poderiamos falar em preconceito (e combatê-lo) de uma forma geral?

Isso me incomodou muito, deveras. Meu coração parecia não suportar as lágrimas de todos que pediam ajuda enquanto professores cheios de soberba falavam de suas viagens à França, seus mestrados e doutorados, e enquanto a maior parte dos os alunos preocupava-se em parecer já ter lido este ou aquele livro que estes mesmo mestres tinham como sua bíblia pessoal. Já rumava, qual catraia solta na tormenta, para o fim que todos se permitem: alegar que não há o que se possa fazer, as coisas são assim e assim permanecem.

Não. Não comigo. Eu acredito em destino, em puro destino, sem espaço para uma respiração nossa sequer sem que seja permitida por Deus, mas isso não significa ficar de braços cruzados, repetindo feito mantra zen-budista que nada posso fazer. Significa fazer o que é certo, o que é bom, o que Ele nos pede ao coração para fazer.

Comprei umas figurinhas (Branca de Neve, Polly, etc.) para a menina, que me observou quando as entreguei, sentada na escadaria de pedra entre as paradas de ônibus e o patamar dos prédios da Universidade. Tinha os olhos verdes (eu não reparar antes) e como eram bonitos. Não eram verdes por questões genéticas, nem por questões líricas, não me interessa estudar isso. Eram verdes de esperança, esperança de que ainda haja quem não se acomode e faça sua parte para um mundo, se não melhor, mais alegre.

Texto iniciado em 22 de Março de 2007, um dia após o acontecido. Desde lá, algumas coisas mudaram. Espero que a vida da menina também, mesmo que só por um instante, com a claridade de um sorriso nos dias chuvosos

Marcadores: Patético, UFRGS

Assim disse Gustavo @ 10:42 PM   1 comentário(s)

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Patético

Os seres humanos corrompem. Corações, sentimentos e até palavras...

Foi Nelson Rodrigues que me abriu os olhos para essa verdade (óbvia, como todas que ele apontava) que ora lhes revelo. E dei-me conta de que isso atingia até mesmo as palavras após ser muito espicaçado pelo vocábulo “patético” nos contos e memórias do escritor fluminense. Por vício adquirido pela influência do mau uso que a maioria faz do referido adjetivo, me soava muito insensível aquele termo referindo-se à dor ou sofrimento ou algum outro sentimento puro de uma pessoa.

Sentindo que algo havia de muito errado no significado que eu tomava como o respectivo para essa proparoxítona, consultei diversos dicionários. Aurélio, Houaiss, Michaelis. Todos confirmaram minha suspeita e informaram que patético nada tem a ver com apatetado, que parecia ser sinônimo. A definição mais simples veio do Michaelis:

pa.té.ti.co

adj. Que comove, que enternece. S. m. O que comove, o que fala ao coração.

Não sei como se chegou ao sentido que a maioria usa atualmente, se por uso sarcástico do sentido original da palavra se por confusão com a palavra que eu acreditava possuir sinonímia com esta. O fato é que se usa uma palavra extremamente forte, supinamente comovente para descrever algo tolo, sem sentido. A mãe de Beslan, envolta e crivada de dor, é patética. Um amor mais forte que a distância e o tempo é patético. A miséria humana é patética.

Mãe de criança morta em Beslan

Outro exemplo de palavra que perdeu o rumo de seu significado original é o verbo “adorar”. Originalmente significando cultuar uma divindade, a palavra encontra-se banalizada, despida do pudor do uso. Não é mais um sinônimo de idolatrar e pode ser vista em uso como mera hipérbole de gostar. Ninguém mais diz a um bom mas não muito íntimo amigo “eu te gosto muito”. Já descamba-se para o desnecessário adorar. Uma tremenda heresia. Adora-se ao deus de nossa fé, e – não distanciando-se muito do conceito original da palavra – nossa família. Nossos pais que nos geraram, nossos filhos que são nosso legado, nossas esposas com as quais decidimos compartilhar o restante de nossas vidas. Adorar é mais que amar, pois adorar só pode existir quando há inabalável convicção do amor do outro por nós – como o de nosso Pai por nós, que jamais nos abandonará, por ser seu amor irrestrito.

Mas este exemplo já compreende a corrupção não somente das palavras e seus significados, mas dos sentimentos arraigados a eles. Não chega a ser surpresa que isso ocorra em tempos tão malucos (o que Nelson disse em sua época eu repito: “Quero crer que certas épocas são doentes mentais. Por exemplo: – a nossa.”), onde tudo pode acontecer, até mesmo o mais absurdo dos acontecimentos. Mas é sempre triste. É sempre... patético... que as pessoas continuem a empregar as palavras sem saber-lhes o significado correto, assim como usam outras pessoas sem que lhes observem os sentimentos. Ignoram-se significados como ignoram-se corações e memórias de paixões.

Marcadores: Nelson Rodrigues, Patético

Assim disse Gustavo @ 10:50 PM   2 comentário(s)

O Autor

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Nome: Gustavo Ribeiro
Lugar: Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil

Um cara aprendendo com a literatura e as culturas de outros países e do meu. Sempre aprendendo, sempre vivendo como se fosse o último dia.

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